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Racismo segundo Nei Lopes
28/11/2007
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| Nei Lopes: racismo em debate |
Paulinha e Pedrinho são filhos de pai negro e mãe judia. Fruto da mistura de raças, as duas crianças não conseguem entender por que certas pessoas são, em função da sua cor, tratadas de maneiras diferentes. O pai, Paulão, e a mãe, Lia, tentam explicar aos filhos a origem dessa distorção, chamada "racismo".
É a partir desse diálogo entre pais e filhos que o compositor, cantor e escritor Nei Lopes constrói "O racismo explicado aos meus filhos", seu livro mais recente, em que expõe origens e conceitos para que as crianças compreendam os males sócio-político-culturais que o racismo causa. Apesar do nome, a obra traz informações úteis para muitos adultos. Partindo desde os primórdios da Humanidade até os dias de hoje, viajando do Antigo Egito à sociedade contemporânea, Nei tenta jogar luz sobre algumas questões pertinentes: oBrasil é um país racista? Cotas para negros em universidades podem ajudar a acabar com a injustiça social? Questões cada vez mais em pauta na agenda do país, e que merecem ser discutidas.
Talvez a pergunta mais difícil, no entanto, seja também a mais básica: por que, afinal, existe racismo? Por que algumas pessoas julgam que diferenças étnicas permitem-lhes discriminar o próximo? Numa entrevista exclusiva para o Viva Favela, Nei tenta responder:
"O racismo existe porque, um dia, alguém achou que havia uma hierarquia dentro dos grandes grupos humanos. Que uns eram melhores e mais bem desenvolvidos que outros. Houve até quem desenvolvesse teorias científicas sobre isso. Principalmente procurando mostrar que quanto mais fossem brancas, de cabelos lisos e narizes afilados, as pessoas seriam mais aristocráticas e mais inteligentes que as demais. E a partir desse argumento, os 'civilizados' dominaram os 'selvagens', contando-se entre estes principalmente os negros e os índios. Mas hoje a ciência sabe que essa hierarquia não existe, do ponto de vista científico, ocorrendo apenas circunstâncias históricas, sociais e econômicas que determinam o maior ou menor desenvolvimento dos povos. Pessoas menos esclarecidas, entretanto, continuam pensando como os antigos. Essas são as pessoas racistas. E elas estão em todos os lugares, influenciando muito".
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| Livro de autoria de Nei |
Racismo não era discutido abertamente
Nascido em Irajá, Nei Lopes só descobriu de fato o que é racismo quando saiu da periferia e foi competir na sociedade. "Só quando nos víamos em situação de competição que percebíamos o quanto éramos discriminados", explica. Além do mais, Nei lembra que, só a partir dos anos 70 é que se começou a discutir abertamente a questão do racismo. "Antigamente, nem sabíamos ao certo o que era racismo. Até porque não se falava sobre o assunto. O negro era discriminado e nem sabia."
Militância e samba
Ao entrar na universidade, Nei iniciou o seu caminho da militância pela igualdade de direitos da raça negra. No entanto, sua militância sempre foi individual, pois "nunca se sentiu a vontade em grupos". Bacharel pela Faculdade Nacional de Direito da antiga Universidade do Brasil, Nei tornou-se um dos principais pesquisadores de cultura africana. No início dos anos 70, abandonou a carreira de advogado para dedicar-se à música e à literatura. Na primeira, teve a trajetória ligada às escolas de samba Acadêmicos do Salgueiro (como compositor) e Vila Isabel (como dirigente), e ganhou fama pela parceria com Wilson Moreira, além de composições com artistas da importância de Zé Renato, Fátima Guedes e Guinga. Na segunda, tem uma obra voltada para a temática afro-brasileira, em que elabora todo um campo de reflexão sobre a participação do elemento africano e afro-descendente na cultura do país. Participação, aliás, que Nei considera fundamental para a formação do Brasil:
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| Nei Lopes: cantor, compositor e escritor |
"À época escravista só o africano e seus descendentes brasileiros trabalhavam. Aí, tudo o que se criava no Brasil e que não vinha da Europa ficou impregnado do que havia na África", explica. "O africano não apenas 'contribuiu' para a civilização brasileira: ele criou essa civilização".
Sócio correspondente do CICIBA, Centro Internacional das Civilizações Bantu, com sede na República do Gabão, Nei ainda escreveu ensaios como "O Samba, na Realidade" (1981), "Bantos, Malês e Identidade Negra" (1988), "O Negro no Rio de Janeiro e Sua Tradição Musical" (1992), "Zé Kéti, O Samba Sem Senhor" (2000), "Logunedé; santo menino que velho respeita"(2000), além de um "Dicionário Banto do Brasil" (1996). Desde 1995, Nei trabalha na elaboração da "Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana", a qual contempla centenas de verbetes sobre o universo do samba e do choro.
Agora, em "O racismo explicado aos meus filhos", ele mostra a discriminação racial no mundo inteiro e levanta discussões sobre o que pode ser feito para evitar que eles se repitam. Estão lá exemplos como a escravidão colonial, o apartheid sul-africano, o genocídio dos judeus na Alemanha de Hitler. Nei também fala sobre os movimentos anti-racistas a favor da igualdade entre pessoas com diferentes cores de pele, culturas e crenças.
“Um país extremamente racista”
Outro tema abordado pelo livro é a suposta "Democracia Racial" brasileira, idéia que se estabeleceu durante muito tempo no imaginário brasileiro - com diferentes interpretações - e que o autor tenta desmistificar. "O Brasil é um país extremamente racista. E passa por ser "bonzinho" porque dissimula esse racismo", afirma Nei. "As coisas agora começam a mudar um pouquinho, com os negros disputando também os bons lugares. Mas aí, a briga começa a ficar feia". Nei, que vê com bons olhos as novas políticas afirmativas, acredita que ainda há resistência da sociedade para a integração dos negros: "A imprensa desmoraliza as idéias de inclusão do negro na universidade; estelionatários interferem na questão das comunidades remanescentes de quilombos... O racismo está sentindo a mudança e aí começa a botar o pé na frente, pra gente cair".
Analisando as tensões raciais presentes no mundo de hoje, Nei acredita que um dia, talvez, o ser humano possa se livrar do racismo. "O mundo está em crise, em todos os aspectos. Então, tudo pode acontecer. Até mesmo esta Humanidade que somos nós. Quem sabe, depois nasce uma outra?"
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