Publicada em: 16/07/2004 às 18:15 |
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Sob vaias e pedras * Colaborou Márcio Rezende Jr.
Braço-direito do governador Carlos Lacerda e secretária de Serviços Sociais do Estado da Guanabara, a professora Sandra Cavalcanti era a última pessoa que os moradores da Praia do Pinto esperavam ver na tarde de 23 de março de 1964. Também não era para menos. Segundo boatos que corriam na cidade, a favela estava prestes a ser incluída na lista de comunidades extintas pelo plano de remoções do governo estadual – do qual Sandra era uma das principais coordenadoras.
Nos dias anteriores à surpreendente aparição de Sandra Cavalcanti na Praia do Pinto, os moradores da então maior favela da Zona Sul viviam dias de tensão. As notícias eram desencontradas e a expectativa sobre a possível remoção enorme. Na época, a comunidade tinha cerca de 40 mil moradores. Por causa da localização privilegiada, em pleno bairro do Leblon e às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, ela despertava a cobiça das imobiliárias. O motivo oficial da visita da secretária à Praia do Pinto seria a realização de uma grande assembléia com representantes de associações de moradores para detalhar as próximas ações do poder público nas favelas da Zona Sul. A reunião aconteceu mais precisamente numa igreja na Rua Afrânio de Melo Franco, na divisa entre a Praia do Pinto e a Cruzada São Sebatião (conjunto habitacional construído em 1955 pela igreja católica para receber famílias removidas da favela vizinha). "Todo mundo na Praia do Pinto dava como certa a remoção. E a gente sabia que mudar para a Zona Oeste não era um bom negócio. Muito pelo contrário. Aí não tem quem não se revolte. Quando o povo viu ela entrando na igreja foi aquela confusão”, justifica o fotógrafo Carlos Cardoso dos Santos, mais conhecido como Monega, de 54 anos, que na época já era morador da Cruzada São Sebastião, mas estava na favela no dia da visita. “Quando Sandra Cavalcanti tentou fazer discurso as pessoas vaiaram com vontade. A situação definitivamente não estava boa para ela. E as vaias só aumentando. Mas o pior veio depois quando começaram a voar pedras em sua direção. Nessa hora, a polícia chegou com a cavalaria e começou aquela correria”, lembra Monega. Procurada pela reportagem do Favela Tem Memória, a ex-deputada Sandra Cavalcanti, atualmente com 76 anos, confirmou que uma das pedras atiradas pelos manifestantes chegou a atingir um dos seus auxiliares. Segundo ela, o protesto teve apenas motivações políticas. "A versão da própria polícia dizia que as pessoas que atiraram as pedras não eram moradores de favela e sim integrantes do Partido Comunista. Todas, aliás, contra a nossa política de reassentamento", explica Sandra. "Esse grupo de baderneiros chegou só no fim da reunião e realmente jogou algumas pedras. Mas a polícia chegou rápido e controlou a situação", completa. Nos jornais da época, ela disse que teria discursado sob aplausos até a chegada de integrantes do Partido Comunista. A ex-deputada chegou a minimizar o apedrejamento dizendo que teria sido um ato isolado de poucos garotos que foram aliciados a vaiá-la e depois a atirar pedras. Remoção era problema, e não solução
O funcionário público Ribamar Felipe Baiano, de 46 anos, era outro que estava na igreja no momento da confusão. Ribamar tinha apenas seis anos na época mas lembra bem da má fama que Sandra Cavalcanti tinha não só na Praia do Pinto como em outras favelas cariocas - principalmente as ameçadas de remoção. “Ela era muito mal falada, os mais velhos diziam que ela mandava jogar os mendigos no Rio Guandu para limpar a Zona Sul. Nós, crianças, imaginávamos ela como uma bruxa ou algo parecido”, conta Ribamar, que no ano seguinte foi transferido junto com a família para a Cidade de Deus, onde ainda mora. “Sei que depois do apedrejamento ela nunca mais voltou na Praia do Pinto. Nem passou perto. Lembro que os moradores acharam que tinham conseguido demostrar força, que mostraram que as favelas estavam organizadas. Mas o que houve depois foi um relaxamento. Na verdade, havia muito pouca conscientização política e isso acabou facilitando a remoção”, acredita Monega. Sobre o termo "reassentamento" usado pela ex-deputada para se referir às remoções dos anos 60, Monega disse: "Ela sempre foi uma mulher muito inteligente, sempre que pode despista, até hoje é assim", diz. A favela da Praia do Pinto foi definitivamente extinta em 1970 após um incêndio de grandes proporções - para muitos, intencional - que destruiu boa parte da comunidade. “O incêndio foi uma saída dos poderosos para evitar o conflito com os moradores e forçá-los a sair de suas casas. Conheço gente que nunca mais estudou porque onde foi morar não tinha nem colégio”, afirma Monega. A própria Sandra Cavalcanti denuncia: "O incêndio foi criminoso motivado puramente por interesses imobiliários na região". Trecho de matéria publicada no Correio da Manhã em 25/03/1964 Antecipou, por fim, que a próxima favela a ser removida é a da Praia de Ramos, conjunto do Serpha e Maria Angu, para cujo início está aguardando apenas a conclusão de novas casas na Vila Kennedy. Trecho de artigo publicado por Sandra Cavalcanti no Jornal do Brasil em 04/11/1996: Por Trás das Balas (...) "A única solução que existe para se recuperar um território que está em poder do inimigo é iniciar uma ação bélica. Trata-se de pôr em prática uma tática de guerra, com a ocupação, ostensiva e poderosa, de todo o território a ser conquistado. Ocupada militarmente a área reconquistada, os moradores devem ser ajudados a sair dali, pois o território reconquistado vai ser liberado da presença do crime. Vai ser reflorestado, se for o caso. Ou vai servir para uma escola, para um posto de saúde ou para uma delegacia. Enfim, vai ter uma destinação pública e social. Ao reassentar os moradores em suas novas residências, o poder público deve cuidar para que eles possam ter, daí em diante, a mesma qualidade de vida de qualquer cidadão carioca, livre de quadrilhas e de chefes de gangues". (...) Trecho de artigo publicado por Sandra Cavalcanti no Jornal O Globo em 10/6/2004: Um plano social para a habitação (...) "Desgraçadamente, as grandes metrópoles do país cresceram de forma desordenada, quase sempre governadas por políticos sem visão, apoiados ideologicamente por uma esquerda que sempre odiou a idéia da propriedade privada e pelos populistas, que sempre sobreviveram às custas de currais eleitorais. Essas metrópoles exibem hoje um dramático quadro de desordem e insegurança. Os donos das favelas agora são outros. Os antigos chefes políticos foram desalojados pelos comandos do tráfico e as pobres famílias, escravizadas, não têm como sair de lá, nem que o queiram. No entanto, se os atuais prisioneiros desses aglomerados urbanos descobrirem que existem ofertas legais, dignas, ao alcance de suas posses, situadas em locais servidos por trens e metrôs, eles partirão espontaneamente em busca de sua inclusão no tecido urbano legal da cidade. A lei da oferta e da procura é inexorável. Para isso, no entanto, é preciso multiplicar a implantação de linhas de transporte coletivo rápido e eficiente. A velocidade do transporte coletivo consegue o milagre de fazer ficar perto, em tempo, aquilo que está distante, em quilômetros. Exatamente o contrário do que ocorre hoje, quando uma distância pequena exige horas no trânsito engarrafado. Ninguém vai precisar inventar a roda. Ninguém vai precisar escrever a História do Brasil de novo. É só tentar imitar o que deu certo em outros países, em outras cidades e no antigo estado da Guanabara, no pequeno período em que ele foi governado por Carlos Lacerda. Não tem mistério!" |
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