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Fortaleza materna
29/01/2005 - Dayse Lara

Benedita é exemplo de mãe batalhadora
Benedita é exemplo de mãe batalhadora

Benedita Monteiro da Costa Bitencourt chegou na Cidade de Deus em 1966. Ela ainda se lembra de que havia por ali uma lagoa onde os moradores caçavam rãs para comer. O chão das casas era de barro e não tinha luz, nem água, nem vaso sanitário. Mas cada praça tinha um banheiro com bica e chuveiro coletivos.

Dona Benedita, 71 anos, recebeu o Favela Tem Memória em sua casa. Muito amável e receptiva, está ligada o tempo todo em tudo o que acontece ao seu redor, apesar da dificuldade visual - ela não enxerga de uma vista.

Toda vez que chove, dona Benedita fica nervosa e começa a arrumar as coisas dentro de casa. Trauma de quem sobreviveu a várias enchentes. Mãe de oito filhos – entre eles, Ailton Batata, que inspirou o personagem do traficante Cenoura no filme Cidade de Deus – ela conta que a família sofreu muito com a pressão da polícia, que achava que eles ajudavam a esconder o rapaz. Também sofriam ameaças das quadrilhas rivais.

Os policiais, conta, achavam que seu filho “tinha cara de bandido” e o levavam sempre para o Instituto Padre Severino (para menores infratores). Mesmo quando saía de casa só para comprar um pão.

“Muitas pessoas foram forçadas a virar bandido devido à ação bruta dos polícias, que ficavam na pele dos meninos, os levavam presos, batiam neles, os retiravam de dentro de casa. Ainda mais quando eram pretos, que para a polícia é sinônimo de bandido.”

Hoje dona Benedita tem mais medo da polícia do que dos bandidos: “No passado, ambos nos respeitavam mais. Hoje a polícia é muito violenta”. Os bandidos, por sua vez, costumavam “pedir com bons modos” quando queriam se esconder na casa de um morador e não fumavam maconha na frente dos mais velhos. “Agora, se possível for, eles jogam até a fumaça na nossa cara”.

Infância difícil

“Só tive infância até os 7 anos: brincava de comidinha, de mãe, de escola. Isso acabou quando pedi ao meu irmão que comprasse um calçado e uma roupa para que eu pudesse estudar. Então ele me falou que eu teria que trabalhar (nessa hora, dona Benedita se emociona muito), pois minha mãe estava doente e não tinha INPS (atual INSS). Então fui trabalhar em casa de madame.

Fiquei em Maceió até os 14 anos, trabalhando em casa de madame. Minha mãe me colocou na escola, mas a patroa me tirou, dizia que não dava tempo para fazer o serviço. Eram sete crianças, mais o patrão e a patroa. Carregava água na lata de tinta grande e lavava as roupas, cozinhava, fazia todo o serviço da casa.

Em 1966, Benedita provou que renda da família dava para pagar casa
Em 1966, Benedita provou que renda da família dava para pagar casa

Às vezes chorava, cansada de tanto trabalhar. Quando eu ia me deitar, as crianças ainda aprontavam comigo, colocando feijão e água no meu ouvido.Eu tinha o sonho de ser cozinheira de forno e fogão ou costureira. Hoje as crianças não brincam mais. No nosso tempo, a gente queria brincar, mas a brincadeira era trabalho. Hoje se tem mais condições. Antigamente tinha que se deixar de estudar para trabalhar. Hoje, não estuda quem não quer, a família ajuda como pode, dando uma mochila, um caderno e lápis...

Minha mãe trabalhava numa casa de farinha, em Maceió, como farinheira. Não conheci meu pai, ele morreu quando eu tinha nove meses, mas sei que trabalhava no interior.

Não passávamos muita necessidade porque plantávamos no quintal, e também criávamos galinhas e porcos. Dinheiro não havia para comprar carne e peixe, mas feijão, arroz, verduras e galinha sempre tínhamos. Minha mãe teve quinze filhos, eu sou a penúltima. Vivos agora restam apenas três, dois vivem no Norte e eu aqui, no Rio de Janeiro. Meus irmãos foram se separando e cada um seguiu o seu destino, mas não mandavam dinheiro porque mal tinham para comprar comida para eles mesmos.

Aos 14 anos, minha madrinha de crisma estava vindo para o Rio. Chorei pedindo para que me trouxesse. Ela veio primeiro e, depois de um mês, mandou minha passagem pelo correio.

Empregada doméstica

Vim para o Rio de navio junto com uma família, pois naquela época não era permitido viajar sozinha. Foram oito dias de viagem dura, não conseguia comer, a maresia me fazia mal. Chegando aqui, fui morar em Vigário Geral (comunidade na Zona Norte), junto com a minha madrinha. Porém fiquei com ela por pouco tempo, ela acabou voltando para sua terra natal.

Arrumei um emprego para dormir em casa de família, em Vicente de Carvalho (Zona Norte). Trabalhava e mandava dinheiro para minha mãe, pois eu tinha onde dormir, o que comer e roupas, e minha mãe não tinha nada. Ainda por cima estava doente, com câncer no útero. Infelizmente ela tinha aquela mania da roça de não querer ir ao médico, tinha vergonha de tratar. Quando eu já estava casada e com o segundo filho, ela morreu.

Foram quatro anos trabalhando na mesma casa. Depois aprendi: quando o emprego não estava bom, saía e procurava outro. Após dois anos, uma irmã minha veio para o Rio. Morei com ela uma semana e voltei para o trabalho. Na época, já não tinha mais pique para os estudos devido ao cansaço. A minha principal ocupação durante toda vida foi trabalhar como empregada doméstica.

Trabalho, só em segredo

Antigamente, não se podia nem pegar na mão do outro se o namoro não estivesse firme. Só tive um namorado, que é meu marido até hoje. Conheci meu marido na casa da minha irmã, no Morro do Pinto, aos 19 anos. Ele morava com a tia, pois seus pais já haviam falecido. Olhamos um para o outro e não deu outra: eu precisava dele e ele de mim.

Casal se conheceu no Morro do Pinto
Casal se conheceu no Morro do Pinto

Nos juntamos, sem nos casar, e fomos morar em Mendes (interior do estado do Rio). Ele trabalhava no Rio, num caminhão de transportes, mas todo fim de semana ia para Mendes. Em menos de um ano alugamos uma casa em São João de Meriti, depois morei em Ricardo de Albuquerque, em Terra Nova, Pilares, no Morro do Urubu e, enfim, na Cidade de Deus, devido à enchente. Na época eu tinha quatro filhos. A casa que tínhamos em Pilares era própria, um barraco que compramos com muito sacrifício.

Quando me casei trabalhava escondida, numa casa de família, por causa do ciúme do meu marido. Ele saía às quatro horas e eu às sete e voltava às treze horas. Ao chegar com dinheiro em casa ele queria saber como tinha aparecido.

Castigos eram pesados

Os adolescentes antigamente nos respeitavam. Hoje a criançada não respeita mais ninguém. O direito não é dos idosos e sim do menor. Essa lei não é de adolescente, é de 'aborrecente'. Antes as crianças levavam bolo de palmatória, ficavam de joelho no milho e não se viravam contra a professora. Hoje em dia, se colocam um dedo no aluno já te processam. Se um adolescente de 16 anos faz filho e mata, que adolescente é esse?

Eu, quando criança, trabalhava para ajudar as pessoas e fazia isso porque gostava, porém, as crianças de hoje em dia só fazem as coisas para ganhar algo em troca. Eu com os meus netos é uma briga. Tudo o que fazem, querem dinheiro. Eu não concordo!

Os castigos do passado eram pesados. Tinha uma vizinha que até queimava as mãos do seu filho se ele pegasse alguma coisa. A educação era mais severa, a criança apanhava mesmo.Quando eu era pequena, apanhei apenas uma vez por ter beliscado o bolo de aniversário, tomei trauma de festa por causa disso! Mesmo com tanta rigidez, ninguém se revoltava contra os pais e quando cresciam ainda agradeciam as palmadas.

Eu não gosto de bater, ficava dez anos para dar uma coça, só ficava na promessa... Os jovens não têm mais tanto amor aos mais velhos, estão revoltados, mesmo tendo mais oportunidades que seus pais, mas parecem que não querem se instruir.

Para polícia, preto é sinônimo de bandido

Temos mais medo dos policiais do que dos bandidos. No passado, ambos nos respeitavam mais, a polícia tinha mais educação. Hoje entram sem pena, não se sabe mais quem é polícia ou quem é bandido! Não respeitam dona-de-casa, nem criança, nem ninguém. Muitas pessoas foram forçadas a virar bandido devido à ação bruta dos polícias, que ficavam na pele dos meninos, os levavam presos, batiam neles, os retiravam de dentro de casa.

Ainda mais quando eram pretos, que para a polícia é sinônimo de bandido. Acabou que muitos se revoltaram, já que eram tratados como bandidos, tornaram-se violentos. Essa pressão da polícia é que faz com que virem bandidos.

Hoje a polícia é muito violenta. Nós, moradores, ficamos com medo. Antigamente, os policiais tinham bons modos, respeitavam os moradores. Agora os policiais entram correndo com o camburão com toda a velocidade apontando as armas para as casa. E nós corremos o risco a todo momento de uma dessas armas disparar acidentalmente e a gente ser atingido por uma bala perdida.

Os bandidos, antigamente, quando iam se esconder, pediam com bons modos para entrar na casa da gente. Chamavam a gente de ‘minha tia’. Quando estavam fumando maconha sempre procuravam esconder quando uma senhora de idade passava. Agora não, se possível for, eles jogam até a fumaça na nossa cara.

Um acontecimento que me marcou muito foi o que aconteceu com a família do Mané Galinha, uma família muito sacrificada. O filme Cidade de Deus mostra pouca coisa da realidade. Eles mostraram as invasões nas casas dos outros, as ameaças às famílias. Mas não foi só isso, tinham coisas boas também. As casas não tinham muro, mas os vizinhos eram um pelo outro.

Tinha um posto de saúde que era muito bom (na Fundação Leão XVIII). Lá tinha aula de corte e costura, de crochê. Mesmo sendo improvisado, oferecia muitas coisas boas para nós, moradores de Cidade de Deus.

A história de Ailton Batata no crime

Benedita e o neto Aramis visitam Batata, em 95
Benedita e o neto Aramis visitam Batata, em 95

Sempre que meu filho saía, mesmo que fosse para comprar um pão, vinham me chamar dizendo que ele tinha sido preso pelo fato de os policiais acharem que ele tinha cara de bandido. Levavam para o Instituto Padre Severino.

Ele não agüentava mais, então, entre 16 e 17 anos, me falou que iria virar bandido ‘porque eles queriam’. Falei que o único prejudicado seria ele mesmo e mais ninguém.

Meu marido não deixou que ele continuasse a morar conosco. Depois a polícia ficava vindo na minha casa atrás dele.Vivíamos assustados, achando que a qualquer hora os bandidos poderiam nos matar. Uma vez, em época de guerra de tráfico, muitos bandidos ficaram em frente ao meu portão, com foice, facão, serrote e machado, querendo nos matar.

Fui para o portão e falei que eu e meu marido trabalhávamos, meus filhos estudam e se era o meu filho que estava errado, que corressem atrás dele. Então quiseram que eu desse o dinheiro da bala, para matar meu filho. Passei um aperto, um filho meu chegou a ser baleado.

Os policiais me perguntavam por que eu não morava em outro lugar, já que meu filho tinha tanto dinheiro. Respondia que não tinha nada a ver com o dinheiro que ele ganhava. Quase não tinha contato com o meu filho depois que ele optou por essa vida.

Também falavam que a minha casa estava um palácio, um luxo, eu mandava então eles irem lá verificar. Quando passava na rua, os polícias cochichavam: 'Olha a mãe do Batata'. Eu sempre deixava claro que foi só meu filho que escolheu essa vida, e que não foi por falta de educação ou orientação. A prova é que, dos oito filhos, apenas um fez essa opção.

Meu filho Aílton Batata foi preso em 1990. Fiquei mais tranqüila, pelo menos lá dentro não tem guerrilha para nos atacar.

São 14 anos de luta. Só eu vou visitá-lo, pois o resto da família desistiu devido às revistas nas quais somos humilhados, temos que ficar praticamente pelados. Temos que tirar o sutiã, a calcinha e se abaixar para ver se tem alguma coisa escondida.

Até idosos passam por isso e se reclamamos, cortam a visita. Fico muito chocada, mas mãe é mãe... A lição que tiro é dar o exemplo da vida de Ailton para meus netos.O Ailton chegava em casa de manhã. Isso foi logo no início da sua vida do tráfico. À noite ele ficava na rua, quando era de dia ele vinha para casa dormir. Dormia até meio-dia, uma hora da tarde. Meu marido achava que ele tinha que agir, procurar um trabalho, uma escola.

Então, o Ailton começou a ser cobrado pelo meu marido. Ele falava que não era nada bom ele sair à noite, chegar de madrugada e dormir o dia inteiro. Meu filho não quis aceitar a pressão de dentro de casa e aí começou a ficar na casa dos outros. Existiam pessoas que apoiavam o Ailton, deixavam ele dormir em suas casas.

Eu ficava com pena, porque na casa em que ele dormia as pessoas eram muito pobres, às vezes não tinham nem o que comer. Eu levava comida escondida para ele.

Meu marido pegava cabo de vassoura para bater nele e eu não deixava, pedia para ele ir com calma. O Ailton até trabalhava vendendo doce, sorvete, mas depois ele foi parando, pois não queria mais fazer isso.

Ele está há 14 anos preso, em regime semi-aberto. Tirou 36 anos de cadeia, mas está esperando a condicional. Atualmente ele trabalha na Prefeitura. ”

Quatro meses sem namoro

Moradia da família fica em rua de barro batido
Moradia da família fica em rua de barro batido

"Em agosto de 1966 teve uma forte enchente no Morro do Urubu. O chão da casa onde morávamos foi cedendo e nas paredes ficou vazando água, igual a um chafariz. A água foi entrando pelos buracos das paredes e inundou a casa.

A Defesa Civil foi retirar-nos, mas meu marido não queria sair. Eu e meus filhos fomos para um abrigo no Jacarezinho e ele continuou lá, mas não por muito tempo. Conseguimos retirar os móveis de dentro de casa, entretanto, quase todos foram roubados no depósito onde deixamos. Ficamos quatro meses no abrigo, com mais quarenta famílias. Durante o dia todos ficavam juntos, mas à noite, os homens dormiam na igreja com isso ficamos sem namorar durante quatro meses!

O que mais queríamos era arrumar nossa casa e ir embora. Meu marido trabalhava como ajudante de motorista de caminhão, a renda era apertada, mas ninguém passava fome.Viemos para a Cidade de Deus e, depois de dois anos, os funcionários do governo fizeram um levantamento e disseram que a renda do meu marido não dava para pagar a casa.

Puxa! Passei um aperto no abrigo, para depois perder a casa, tivemos que morar em uma triagem (casa de dois cômodos) e fui na Associação de Moradores reivindicar. Disse que a renda dos meus filhos, que na época vendiam doces, junto com a minha renda, que lavava roupa para fora, dava para pagar a casa.

A Associação ficava numa casa na Praça Quatro. Quem ficava lá eram os próprios moradores, dona Elza, seu João Batista (sapateiro), Maria do Carmo. Minha casa não mudou muito, só fiz um muro e construí mais um quarto para minha filha. Moravam dez pessoas na casa - tive nove filhos, mas um morreu ao nascer.

Chapolim, dono de uma loja e de um coleginho particular na Rua Edgard Werneck, empregava meus filhos, que faziam a revenda pela comunidade de vassouras, sorvetes e doces de sua loja.

De carroça para o hospital

Aqui existia uma lagoa. Nas poças havia rãs que pegávamos para comer. Nas casas, o chão era de barro e não havia luz, nem água. Para conseguirmos água tínhamos que pegar nos banheiros das quadras. Cada praça tinha um banheiro grande com bica e chuveiro para todos usarem. Meus filhos faziam as necessidades em latas porque o banheiro só vivia cheio. Quem tivesse dor de barriga, tinha que fazer na roupa, pois nas casas não tinha vasos sanitários.

Quando chovia, nossos pés ficavam presos na lama e, para pegarmos ônibus, íamos até ao Juca do Rio (na Estrada do Capenha, final da Edgard Werneck). Meu marido, para trabalhar, saía de casa às quatro horas da manhã e só chegava em casa às dez da noite.

Quando alguém passava mal, tinha que andar até a estrada para ir ao hospital. Muitas vezes, chamávamos ambulância, quando não vinha, tínhamos que ir de carroça para o hospital, embora na reivindicação por melhorias a Associação era bem melhor. Hoje, entra gente e sai gente e eu vejo nada melhorar.

Meu marido sempre foi severo, não deixava nossos filhos saírem para festas de rua, às vezes nem para as festas de família. Era muito rude. Sempre tentava convencê-lo a deixar as crianças saírem, afinal eram jovens. Muitas vezes eu deixava irem escondidos.

Sonho de casar no religioso

Família católica: a filha Elizângela, na eucaristia, e Benedita, ao lado (D) do padre Júlio, em 1995
Família católica: a filha Elizângela, na eucaristia, e Benedita, ao lado (D) do padre Júlio, em 1995

Minha mãe era macumbeira, dizia que quem é de fora, não entra, e quem está dentro, não sai. Tornei-me católica, mas não fervorosa: vou à missa, escuto diariamente a prece do padre Marcelo e já fui, com meu marido, nove vezes ao encontro de casais.

Eu me casei apenas no cartório, mas tenho o sonho de um dia me casar no religioso. Até já paguei a entrada, mas meu marido não foi na reunião. A Igreja Pai Eterno São José, do falecido padre Júlio, era pequena, e para construí-la, ele percorreu a comunidade descalço, pedindo materiais de construção. Foi a nossa primeira igreja.

Estágio de dois anos, sem salário

Arrumei uma vaga de merendeira na escola Leila Barcellos de Carvalho, mas meu marido não me deixava trabalhar, depois foi se acalmando, aceitou e acabou gostando quando viu a ajuda que eu dava nas despesas de casa.

Estagiei durante dois anos, sem receber, depois fui contratada. Trabalhava de duas às cinco da tarde, lavando os banheiros, varrendo salas e ajudando a descascar legumes.

Naquela época, as crianças não eram tão rebeldes, eram um pouco agitadas, mas não eram tão desobedientes. Uma kombi levava as professoras até o ponto de ônibus, lá fora. Trabalhei trinta anos na escola. Lá, todos me conhecem. E dez anos na Escola Municipal Embaixador Dias Carneiro. Depois desse tempo, vim para a Cidade de Deus. Me aposentei em 1994.

Sem tempo para festas

Quando alguém morria e a família não tinha condições de pagar o enterro, a Associação ajudava, assim como os bandidos. Antigamente, os vizinhos eram meus amigos, hoje em dia não tenho mais amigos, uns morreram, outros se mudaram, sou a única que restou.

Morreram muitas pessoas que eu gostava, a última foi a sogra da minha filha. O amigo verdadeiro conversa, é transparente, não trai a confiança e sempre está pronto a ajudar, nunca desfazendo a amizade. Encontrar essas qualidades em uma pessoa é muito difícil. Quanto a festas, não me lembro, depois que mudei, ocorreram muitas enchentes, onde perdíamos tudo, então, não havia tempo para se pensar em festas.

Vida sempre na linha

Aqui tinha uma pracinha para as crianças brincarem, mas retiraram para construírem mais casas. Meus filhos estudaram na Leila Barcelos, depois na Juliano Moreira, Joaquim Fontes, todas localizadas na comunidade. Todos os meus filhos estudaram, mas não terminaram o 2º grau.

A responsabilidade deles ficava mais por minha conta. Com o meu marido era tudo na ignorância, não dava conversa, dizia que eles não freqüentavam a escola, mas nunca ia ver para saber se era verdade. Eu que matriculava eles, que arrumava os padrinhos para o batizado, ele não se mexia para nada, só sabia brigar. Nunca chegou com uma boa conversa ou procurou saber como iam à escola.

Para lidar com os filhos, aprendi com a vida, não tive mãe que me ensinasse. Tem sempre aquela desculpa de que se o filho erra é por causa dos pais. Se fosse assim, daria para o que não presta. Poderia matar, roubar, cheirar, fumar, mas nunca fiz nada disso. A minha vida sempre foi na linha, trabalhando, lutando. Sempre me dediquei a meu trabalho.

Na adolescência nunca fiquei pela rua de conversa. Hoje os jovens sempre acham que falamos demais, mas um dia se arrependem por não terem ouvido os mais velhos.

Filho de Batata mora com avós

Netos compartilham área no terreno dos avós
Netos compartilham área no terreno dos avós

Dona Benedita mora com o marido e o filho de Ailton Batata. No quintal de sua casa, moram os filhos e os outros netos. O marido está aposentado, mas ainda trabalha como zelador na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC).

Ela passa a maior parte do dia cuidando dos afazeres domésticos e à noite recebe seu marido com a comida quentinha. Freqüenta o posto médico para verificar a saúde, pois é hipertensa, tem osteoporose e problemas de varizes e de coluna - ‘um pouco de tudo’, como ela mesma diz.

Além disso, dá bastante atenção à saúde do marido, que também toma remédios. Em sua casa sempre tem uma visita - filhos, netos ou bisnetos.O marido costuma chamá-la de Amélia, por ajudar a todos. “Um sonho meu é me mudar da Cidade de Deus, mas fico aqui por causa da família, deixar a família para trás seria difícil...”

Bate bola:

Getúlio Vargas: “Eu não gostei de terem matado o Getúlio Vargas. Eu adorava ele desde criança. Ele ia muito em Maceió ajudar o povo. Foi muito bom para as famílias. Se pudesse mudar eu queria que ele tivesse vivo.”

Lacerda: “ Eu não tinha muita intimidade nem lembrança de Lacerda.”

Leonel Brizola: (risos) “Ah! Leonel Brizola, dizia que ajudava os favelados, mas não ajudava droga nenhuma. Eles ajudam é a brizola deles. (mais risos). Eu não gostava dele.”

Pílula anti-concepcional: “Nem sei se eu acho certo ou errado. Eu acho certo, mas a maioria não tem o dever de usar direitinho. Porque talvez resolva, porém não tão usando como têm que usar.”

Ida do homem à Lua: (com espanto) “Eu não ia à Lua não. Eu nunca imaginei isso, e não acho que seja certo. É temer a Deus, isso é mexer com o sentimento de Deus.”

Nazismo: “Nazismo é guerra?”, perguntou dona Benedita. “Isso é muito ruim.”

Segunda Guerra Mundial: “Também é ruim.”

Jerri Adriani: “Muito legal, muito bom.”

Comunismo: “Não, é horrível. Não dá, tem que sair fora.”

Papa no Brasil: “Foi muito legal. Eu fui até lá no Maracanã. Fui sozinha.”

Bin Laden: “Parece mais uma assombração do que homem.”

Bush: “Também é outro.”

Bossa Nova: “É bom. Para quem gosta de dançar, uma bossa nova cai bem.”

Maior enchente: “Foi a de 1996. Quase morri, perdi tudo. Para mim foi horrível, não posso nem ver chuva. Toda vez que chove fico com dor de barriga e começo a arrumar as coisas. Eu ia quase sendo levada pela correnteza o garoto que me agarrou e me puxou. A água veio na minha cabeça. Eu não sei nadar. O menino me segurou pela roupa e me levou para casa de uma vizinha. Perdi tudo. A única coisa que ficou foi um rack de pinho. Perdi geladeira, estragou fogão, cama, tudo que eu tenho, eu ganhei depois. Perdi a maioria das roupas. Os documentos eu coloquei no alto.”

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