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Relíquias do samba
09/02/2005 - Jaime Gonçalves

Dora: mítica porta-bandeira da Império Serrano
Dora: mítica porta-bandeira da Império Serrano

Eles são uma relíquia viva do samba carioca. Na ala da Velha Guarda, guardam na memória as sucessivas mudanças que hoje são lembradas por muito poucos mas que contam parte da história da cidade e da evolução dos costumes. São episódios saborosos como o pudor que Doraci de Assis, a Dora, de 74 anos, sentiu ao ver a roupa de Embaixatriz do Samba do Rio de Janeiro, reservada para ela em 1947.

“Na hora em que eu vi aquele vestido, com as costas toda nua, com um decote que vinha até aqui em baixo, eu só pensava na minha mãe. Naquele tempo, moça direita não andava com qualquer tipo de roupa, não”, lembra Dora. A Embaixatriz do Samba era uma espécie de representante oficial do Carnaval da época.

Ela bem que tentou, junto com a mãe, conhecer o vestido com antecedência. Não conseguiu. Dora tinha apenas 17 anos e foi responsável por abrir os desfiles na avenida no ano em que, por coincidência, foi de estréia da Império Serrano – escola da qual seria depois uma mítica porta-bandeira.

Hoje integrante da Velha Guarda da escola, ela lembra que nos ensaios “os sambas eram cantados no gogó, porque não tinha caixa de som nem nada”.

Turistas jogavam dinheiro

Outra relíquia da escola é Arandi Cardoso dos Santos, o Careca - até hoje uma das mais importantes figuras da Império. Foi Careca, segundo Dora, que criou a primeira ala a desfilar com coreografia no Carnaval - junto com Jorginho do Império e Jamelão (não o da Mangueira): a ala Pelés do Samba.

Dora, Nelly e Careca, que inventou a ala coreografada
Dora, Nelly e Careca, que inventou a ala coreografada

“Eles dançavam como se tivessem driblando, no ritmo da música. Era lindo”, conta Dora. Careca lembra que no primeiro ano, o público – especialmente os turistas - ficava encantado e jogava dinheiro na avenida. “Nós ficamos até ofendidos”.

Careca se recorda ainda das famosas reuniões na casa de Dona Eulália de Oliveira Nascimento. Era sempre uma festa. “A casa era simples, tinha chão de terra e quando chovia, o povo ficava com lama por aqui”, diz Careca, apontando a própria canela, um pouco abaixo do joelho.

A casa de Dona Eulália é uma espécie de berço da Império Serrano, segundo Careca. Até hoje está lá, do mesmo jeito, na Rua Balaiada, 136, incrustada no Morro da Serrinha, em Madureira, representativo bairro do subúrbio carioca.

Aos 97 anos, Dona Eulália sofreu recentemente um derrame e não pôde falar ao Favela Tem Memória. Mas continua a ser uma referência na história da região para os vizinhos da Serrinha, que falam dela com muito respeito. Ela, e o irmão Molequinho, presidente de honra da escola.

Nascida em Minas Gerais, Eulália chegou na Serrinha com um ano de idade. Segundo o site da Império Serrano, ainda menina ela acompanhava os blocos carnavalescos que o pai organizava na comunidade. Já moça, operária de uma fábrica de estopa, costumava sair como pastora no Rancho Caprichosos da Estopa. Com o tempo, se transformou na figura feminina de maior destaque do local, confundindo sua vida com a própria comunidade da Serrinha.

Dona Eulália e a famosa Ladeira da Balaiada, no Morro da Serrinha
Dona Eulália e a famosa Ladeira da Balaiada, no Morro da Serrinha

A escola de samba Império Serrano nasceu em 1947 e fez seu primeiro desfile em 1948. Em 1946, um fato havia provocado a debandada dos componentes do Prazer da Serrinha, a antiga agremiação da região: o descarte do samba Conferência de São Francisco, de Silas de Oliveira e Mano Décio da Viola, na hora do desfile. A dissidência decretou a extinção da Prazer da Serrinha, mas uniu as famílias em prol de outro objetivo: a criação da Império Serrano.

Problema com as mulheres

Careca, Jorginho do Império e Jamelão também criaram a ala Sente o drama, só com passistas homens. Nelly Barbosa, 64 anos, que integra a Velha Guarda, conta as tentativas frustradas de desfilar na ala. “Fiz tudo, de tudo. Todo ano, o ano todo, eu ia lá perturbar, dizer que queria desfilar, e ele negava. Dizia que mulher só ia atrapalhar, você vê?”, diz hoje, resignada.

Careca explica que os candidatos tinham apenas que imitar seus passos. Se conseguissem dançar como ele, estavam aprovados. A única exceção às mulheres foi feita anos depois e gerou revolta. “Rapaz, foi um problema, porque ela era branca. Mas o que eu ia fazer se a mulher sambava? Eu dizia: ‘Faz isso’, ela fazia; ‘Faz assim’, ela fazia; ‘Faz esse’, ela fazia. Não tinha como eu negar. Aí as pretinhas caíram em cima de mim. Então eu disse: ‘Se vocês forem lá e fizerem o que ela faz, estão aprovadas’. Ninguém nunca fez”.

“Virou tudo comércio”

Zezé: antes havia mais alegria e simplicidade
Zezé: antes havia mais alegria e simplicidade

Quem fez muito mais, mas em outra escola, foi Maria José Gomes de Carvalho, 50 anos, da Velha Guarda da Vila Isabel. Zezé, como é conhecida na agremiação, diz ter sido levada para o mundo do samba por uma tia, que por sua vez era sobrinha do compositor Heitor dos Prazeres, autor do clássico Pierrô apaixonado, junto com Noel Rosa.

Zezé conta que deu os primeiros passos ainda na escola do Engenho da Rainha, na Zona Norte do Rio. Aos 14 anos mudou para o Morro dos Macacos, em Vila Isabel, e aos 15 começou a sair no Herdeiros da Vila, bloco em que desfilam até hoje crianças e adolescentes do bairro.

Mesmo sendo uma das mais novas integrantes da Velha Guarda, Zezé tem saudades: “Ah, não tem mais desfiles como aqueles. Acho que as comunidades participavam mais, tinha mais alegria na brincadeira. Até as fantasias eram mais simples, feitas na comunidade mesmo. Hoje virou tudo uma indústria, comércio”.

Ela ressalta, no entanto, que as transformações sofridas ao longo dos tempos também foram positivas para o Carnaval. “Hoje temos muito mais recursos, os desfiles são mais bonitos, não se pode negar; mas não tem mais aquela diversão”, diz.

Até quarta-feira

Até o anel de Zezé combina com as cores da Vila Isabel
Até o anel de Zezé combina com as cores da Vila Isabel

Zezé desfila há 35 anos na escola, a maior parte deles na ala da comunidade. “Desfilei dois anos no departamento de mulheres, mas não gostei, não. Tinha que ficar tomando conta das outras mulheres, nem dá para curtir o desfile”.

É o diretor da ala de passistas, Cyro do Agogô, quem lembra os melhores desfiles da antiga aluna. “Ela contou que foi minha passista? Contou que o marido dela era cheio de ciúme e não queria que ela desfilasse como passista? Tem que contar essas histórias”, provoca Cyro.

Ela desconversa (“nem lembro dessas coisas”), mas acaba cedendo: “Era engraçado mesmo esse ciúme. Uma vez ele me trancou em casa com as duas crianças e fechou a porta com prego e madeira. Quando ele desceu para desfilar, eu comecei a gritar pela vizinha. Ela veio com uma escada, tirou algumas telhas e eu passei por aquele buraco com as duas crianças. Como ele ia desfilar na bateria, falei: ‘Ele não vai me ver mesmo. Desfilo, volto correndo e ele nem vai saber’. No final do desfile dei de cara com ele, que saiu correndo atrás de mim. Sumi na poeira e só voltei na quarta-feira de cinzas. E isso, porque tinha deixado meus dois filhos com a vizinha, dizendo que ia desfilar e já voltava”, conta, às gargalhadas.

Sambando descalço

Outra figura lendária no mundo do samba, Joel de Paula Soares, o Vitamina, puxa pela memória e conta que começou aos quatro anos arrastando os pés e balançando as pernas no meio dos batuques. “Estava lá sambando e um diretor me levou pra perto da porta-bandeira, pra sambar com a bandeira da escola na mão. Nessa época ainda não existia o Salgueiro, mas tinha várias escolas aqui na região da Tijuca”.

<EM>Vitamina</EM> sambava descalço em chão de barro
Vitamina sambava descalço em chão de barro

O Salgueiro foi criado há 50 anos, num tempo em que quadra se chamava terreiro, o chão era de barro e as pessoas sambavam descalças. “Era uma poeirada danada, mas muito divertido, outro clima. Tinha uma hora em que vinha o cara com um regador de plantas e dizia: ‘Homens pro lado de cá, mulheres pro lado de lá’. Dava uma organizada na brincadeira e molhava aquele pedaço vazio de chão, pra diminuir a poeira. Foi daí que surgiu o diretor de terreiro, que depois virou diretor de harmonia”, ensina Vitamina.

Divertido, ele lembra como eram realizados os testes para passista naquela época na escola. “Se chegasse alguém dizendo que queria ser passista, era logo levado pro morro. Lá colocavam três pedras assim, uma do lado da outra, com uma distância de um metro mais ou menos. Aí mandavam o sujeito sambar em cima das pedras e iam dizendo: ‘Agora passa pra aquela ali, volta pra essa, vai pra outra’. E ele tinha que fazer tudo isso sambando e sem colocar o pé no chão. Se conseguisse, estava aprovado”, lembra.

Dormindo nas ruas da favela

Irenício da Silva, 66 anos, acompanha a história da Caprichosos de Pilares, em Pilares, subúrbio carioca, desde o tempo em que a azul e branco tinha outras cores e nome. Ele conta que três anos depois de deixar para trás o nome Era o que Dizem, os integrantes acharam por bem trocar o vermelho pelo azul. Mas mantiveram o branco. “Como tinha muito preto nos desfiles, acharam que o azul e o branco deixavam as coisas mais leves, combinavam mais”, explica Silva.

Atual presidente da Velha Guarda da escola, Silva diz que uma das maiores mudanças sentidas pela comunidade foi em relação à segurança. “Naqueles tempos ninguém deixava de desfilar ou sair para se divertir por causa da violência. As pessoas daqui de baixo iam comemorar lá no morro (Morro do Urubu), onde tinha o bar do Próspero, tinha o armazém do Seu Álvaro, onde rolavam as melhores rodas de samba”, lembra ele. Os que saíam, diz Silva, e ficavam cansados, dormiam pela rua mesmo. “Hoje isso não é possível”, fala com certo pesar.

Irenício: melhores rodas de samba eram no morro
Irenício: melhores rodas de samba eram no morro

O sambista diz que até as apresentações feitas na comunidade depois do desfile oficial foram suspensas há alguns anos por conta da violência. “Parece que agora vão voltar”, torce. Antigo morador do Morro do Urubu, vizinho à escola, Silva diz que só saiu de lá depois que uma chuva, seguida de deslizamento, derrubou sua casa nos anos 60. Ele lembra com saudade das comemorações dos bons desfiles.

“Descia o morro todo, a quadra ficava lotada. Nós fazíamos rabada, feijoada, macarrão... era a festa da comunidade.” Em seu currículo de desfiles, Silva passou pela ala da comunidade, pela bateria, foi mestre-sala e diretor de harmonia. Há dez anos desfila na Velha Guarda.

“É genial e não se fala”

Uma mudança que também não agrada ao pessoal da Velha Guarda é o excesso de celebridades nos desfiles. Careca, da Império Serrano, também não alivia o que ele chama de ‘endeusamento’ dos carnavalescos. “Agora o mago, o gênio, é o carnavalesco. Mas não são dele as pernas e os braços daqueles que sambam e tocam lá na avenida, não é?”, pergunta indignado.

Ele acha que a Império Serrano é a mais inovadora das escolas de samba. “A escola é formadora de sambista; foi o Império quem inventou a fantasia, quem inventou a segunda parte do samba, quem inventou a coreografia. Isso é importante e as pessoas não sabem, os jovens não sabem. Assim como não sabem que a batida do bumbo da Mangueira é única, diferente de todas as escolas. É a única que não tem bumbo de resposta, a resposta está no corpo do sambista, no samba. Isso sim é genial e não se fala”, desabafa.

A importância destes senhores e senhoras em manter viva a história das comunidades e do samba é ressaltada por compositores mais novos, como Moacyr Luz. “Não há a menor dúvida de que as Velhas Guardas estão possibilitando manter a base para seguir a história de cada escola, de cada comunidade envolvida com cultura popular”, afirma Luz.

Para comprovar, diz ele, basta notar “a reverência do meio musical” com Monarco (na Portela), Xangô (na Mangueira) e Wilson das Neves (no Império). Uma reverência que está presente “desde suas quadras até as novas rodas de samba, onde estão cercados de jovens universitários ávidos por entender essa magia do samba”, fala.

Luz, de 46 anos, ressalta que suas memórias anteriores aos anos 70 não passam de recordações de criança cheia de fantasias. Segundo o compositor, encarar a Velha Guarda apenas pelo ponto de vista do saudosismo é subestimar a riqueza que essas pessoas trazem na memória.

“Toda a mídia trata o samba como folclore, não o incorpora no cotidiano das rádios, dos programas de TV, das capas de revistas.” Quando essa visão mudar, quem sabe ficará mais fácil aproximar o passado do presente sem o ranço da nostalgia.

Leia matéria sobre homenagem feita em 2003 ao fundador da Império Serrano, Sebastião Molequinho.

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